Esclerose Múltipla e Trabalho: reintegrar profissionalmente é missão de todos
A Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM) e a Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho (SPMT) juntaram-se para refletir sobre o impacto das decisões de aptidão na vida profissional das pessoas com esclerose múltipla.
Realizou-se a 30 de outubro, em formato online, a sessão “Esclerose Múltipla e Trabalho: Para Além da Aptidão”, no âmbito da Ação NeuroAcademia da SPEM. A SPMT esteve representada pela Dra. Ana Sofia Ramos e pelo Dr. Carlos Ochoa Leite, membros da Direção.
O ponto de partida foi a pergunta lançada pela SPEM: estaremos, enquanto sociedade e sistema laboral, a afastar precocemente do trabalho pessoas que poderiam continuar com as adaptações adequadas?
A evidência apresentada sugere que, muitas vezes, sim. A esclerose múltipla é diagnosticada, em média, aos 32 anos, em plena vida ativa. Cerca de metade das pessoas que deixam o trabalho por causa da doença fá-lo nos primeiros anos a seguir ao diagnóstico. Os sintomas que mais pesam no desempenho profissional, como a fadiga, as alterações cognitivas e a sensibilidade ao calor, não se veem no exame neurológico e nem sempre são valorizados.
Mas o desemprego entre pessoas com esclerose múltipla tem diminuído na última década. Num estudo prospetivo, sete em cada dez trabalhadores com a forma surto-remissão mantiveram a sua situação laboral ao fim de três anos. E a maioria das adaptações no posto de trabalho tem um custo reduzido ou nulo. A sessão centrou-se na discussão de quatro casos práticos, com votação e participação ativa do público.
Destacaram-se cinco mensagens:
O diagnóstico não determina a aptidão. A capacidade funcional deve ser avaliada face às exigências do posto concreto, num dado momento, com revisão periódica.
O que não se vê também conta. A fadiga, a cognição, a sensibilidade térmica, as alterações emocionais e as queixas urinárias e gastrointestinais devem ser ativamente avaliadas no exame de saúde.
A aptidão condicionada pode permitir a adaptação ao trabalho. Restrições específicas e um prazo de reavaliação permitem manter o trabalhador ativo numa doença que apresenta um curso flutuante.
Restrições na ficha de aptidão e nunca diagnósticos. O empregador recebe a aptidão e as recomendações, mas nunca o diagnóstico; o sigilo médico protege a pessoa.
Intervir cedo aumenta o sucesso da reintegração profissional. O exame de saúde ocasional no regresso ao trabalho é uma oportunidade para adaptar o posto de trabalho e prevenir conflitos, faltas e erros.
Um dos momentos mais marcantes foi o testemunho de uma pessoa com esclerose múltipla que se mantém ativa profissionalmente. Partilhou o seu percurso desde o diagnóstico e o processo de adaptação ao trabalho, mostrando na primeira pessoa o que a evidência descreve: com apoio e adaptações ajustadas, continuar a trabalhar é possível. O seu testemunho deu rosto às mensagens da sessão e lembrou que cada decisão de aptidão tem impacto real na vida de quem trabalha.
A mensagem final foi clara: continuar a trabalhar é possível, e pessoas com Esclerose Múltipla não estão sozinhas nesse caminho. Reintegrar profissionalmente é uma missão de todos nós e um processo que exige o envolvimento das organizações, desde as chefias aos recursos humanos, o apoio dos colegas no combate ao estigma e a participação dos serviços de Medicina do Trabalho na adaptação do posto de trabalho atempada.
A SPMT agradece a todos os participantes e reforça o compromisso de continuar a trabalhar em conjunto pela inclusão e pela dignidade profissional das pessoas portadoras de doenças crónicas.
A gravação integral da sessão está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=j9tm9-DX0pw
A Direção da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho




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